Praia Grande

Cobrinha, o GPS humano de PG, quer ir para o Guinness Book

Taxista aposentado, Cobrinha decorou o nome de mais de mil ruas e quer tentar o recorde mundial.

21 JUL 2019 Por Vanessa Pimentel 10h:07
Para gravar os nomes, anotava tudo em uma caderneta. Para gravar os nomes, anotava tudo em uma caderneta. / RAFAELLA MARTINEZ/DIÁRIO DO LITORAL

Cobrinha chegou à redação do Diário do Litoral esbaforido, ao lado da esposa. Sem explicar direito o motivo que o trazia até o jornal, perguntou se podia se acomodar no sofá para contar uma história. Antes que a repórter entendesse que história era essa, o senhor tirou de uma sacola mais de cinco exemplares de jornais com páginas plastificadas, onde textos e fotos antigas contavam um pouco da vida do homem conhecido como 'GPS humano'. GPS humano? "Sim, sou o GPS humano de Praia Grande, porque decorei o nome e a localização de mil ruas da cidade".

Orientado pela repórter, ele 'começa do começo' e diz que tem 67 anos, se chama José Carneiro dos Santos, mas só o conhecem como Cobrinha, e que decidiu procurar o DL porque todos os outros veículos da região já tinham feito matérias sobre a vida dele, faltava o Diário. Além disso, ele ama aparecer em jornais, porque é um apaixonado pelas histórias contadas nos periódicos.

Cobrinha conta que começou a traçar mapas mentais há mais de 30 anos, quando engrenou na profissão de taxista, em Praia Grande, município onde mora até hoje. "No início eu me perdia e tinha dificuldade em achar os endereços. Alguns clientes sem paciência reclamavam e diziam que eu não conhecia a cidade. Fiquei chateado e comecei a treinar minha cabeça para decorar os nomes das ruas", explica.

Para isso, ele teve ajuda de uma inseparável caderneta. A cada rua que passava, anotava o nome. Dessa forma conseguiu, sem técnicas rebuscadas, guardar na memória cada endereço e, consequentemente, diminuir o tempo de viagem dos clientes em uma época onde aplicativos de localização via internet estavam longe de ser realidade.

Com o hábito ganhou, além da fama entre os companheiros taxistas, todas as apostas com quem teimava em duvidar do talento dele. "Me falavam: 'duvido você falar o nome de todas as ruas desse bairro'. Eu falava certinho e o pessoal se espantava. Ganhei muita Coca-Cola assim", brinca.

Atualmente, ele está aposentado mas segue fazendo bicos de motorista "porque viver da aposentadoria não dá".

OUTROS HORIZONTES

Além das mil ruas de Praia Grande, o dia a dia em frente ao volante propiciou conhecer as vias de outras cidades. Em São Vicente, ele decorou 80 nomes, e em Santos, 70.

Tão rápido quanto o Waze (app de endereços via satélite), orgulha-se ao contar que também sabe, em ordem geográfica, os nomes das 64 cidades que ficam no trajeto de Praia Grande até Cruzeiro, interior de São Paulo. Quase sem pausa, desembesta a falar os nomes dos 64 municípios e, em seguida, como se precisasse provar o talento da memorização, as 23 estações da linha azul do metrô, por ordem de parada.

PASSADO

Cobrinha é filho do Nordeste, natural de Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco. Morou lá até os 24 anos e trabalhava como cambiteiro. "Cambiteiro é quem carrega cana no lombo do jumento".

Foi nessa idade que veio para a Baixada, com a promessa de trabalho no Porto e no Polo Industrial de Cubatão. Mas parece que Cobrinha estava fadado a ser o GPS humano, já que desde o primeiro emprego teve de aprender sozinho como chegar aos endereços que entregavam a ele.

"Eu era entregador de mercado. Os cabras me mandavam para lugares que eu não tinha ideia de como chegar". Mal sabia ele que, anos mais tarde, seria o seu próprio GPS e falaria, quase que cantando, os nomes dos cantores que nomeiam o bairro Caieiras.

"Meu conterrâneo Luiz Gonzaga, Emílio Santiago, Tim Maia, Cassia Eller, Chiquinha...", e segue falando.

Arretado, continua a decorar novos endereços e quer se inscrever no Guinness World Records (o livro dos recordes), como o taxista que sabe de cor e salteado o nome de mais de mil ruas.

Pretende também ir ao programa do apresentador Rodrigo Faro para participar da competição de forró "e ganhar um trocado", já que "danço um arrasta-pé melhor que qualquer um".

Com uma autoconfiança invejável, se despede da redação do DL dizendo que agora só faltam a Folha de São Paulo e o Estadão.

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