Saúde

Com parto humanizado, número de cesáreas cai 15% em hospital

Para isso, o Hospital Ana Costa teve que passar por mudanças como reestruturação da equipe e modificação de todo um andar para o atendimento exclusivo das gestantes

12 MAR 2018 Por Caroline Souza 11h:09
Com parto humanizado, número de cesáreas cai 15% em hospital Com parto humanizado, número de cesáreas cai 15% em hospital / Rodrigo Montaldi/DL

O Hospital Ana Costa (HAC) conseguiu reduzir em 15 pontos percentuais o número de cesarianas em seis meses. A queda aconteceu após o hospital dar início a um programa de humanização do parto, em agosto de 2017. 

Para isso, o HAC teve que passar por mudanças como reestruturação da equipe e modificação de todo um andar para o atendimento exclusivo das gestantes.

“Parto humanizado é uma forma de atender a gestante respeitando suas vontades, valorizando sua experiência e trazendo a família para a participação deste momento”, comenta a Coordenadora Médica do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HAC, Maria Luiza David. “O parto humanizado respeita o processo natural e evita condutas desnecessárias ou de risco para mãe e para o bebê”, complementa.

Neste tipo de parto, mãe e médico tem que falar a mesma língua. Não há mais berçário no hospital e o bebê fica ao lado da mãe desde o nascimento, a menos que precise de cuidados especiais. 

As mudanças começam na entrada, que passou a ser exclusiva para o atendimento da gestante. Assim que chegam, as pacientes passam por uma triagem, onde é priorizado o quadro clínico de cada uma, independente da ordem de chegada. A gestante pode contar com um acompanhante de livre escolha em todo o período de internação e os visitantes têm acesso livre, além de poder aguardar o nascimento do bebê em uma sala no mesmo andar de onde é realizado o parto. 

Entre as mudanças, podemos destacar a ampliação do quadro de médicos e do número de consultórios; implementação do quarto PPP, que visa contemplar as escolhas da paciente, com possibilidade de uso de método não farmacológico de alívio de dor; acesso livre à UTI Neonatal; redução do número de medicações e implementação de outras formas de alívio das dores; contratação de mais médicos e de uma enfermeira obstétrica; criação da sala de extração de leite materno, na qual as mães que acompanham bebês internados na UTI neonatal podem retirar seu leite para alimentar os filhos.

“A criação desta sala reduziu em 50% o consumo de alimento artificial dado aos bebês”, diz a coordenadora Maria Luiza.

Uma equipe multidisciplinar é responsável por manter tudo funcionando. Fazem parte do atendimento à mãe e ao bebê uma enfermeira obstétrica, um obstetra, um pediatra, uma nutricionista, um fisioterapeuta e uma fonoaudióloga. 

Contato mãe e bebê

“O vínculo com a mãe, acalma o bebê”, afirma Coordenador Médico do Serviço de Pediatria, Marcelo Ruiz. Dessa forma, o parto humanizado também quer aproximar o contato pele a pele o máximo possível.
Segundo Maria Luiza, assim que o parto ocorre, o médico dá o bebê para a mãe segurar ainda com o cordão umbilical, para ela sentir o batimento do recém-nascido por essa via. 

“Para auxiliar neste momento, criamos o top maternal, que é colocado na mãe para que o bebê possa ficar seguro, sem a necessidade de segurá-lo com os braços”, diz a médica.

Por conta deste top, mesmo as mães que fazem cesárea, e ficam com braços abertos, podem ter o contato inicial com os bebês.

O hospital também implementou o método canguru, que é um modelo de assistência ao recém-nascido prematuro e sua família, internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal, voltado ao cuidado humanizado. “Esse método permite que o bebê tenha contato com a pele dos pais e, desta forma, se desenvolva melhor”, explica o pediatra.

De acordo com o médico, bebês de 1,2kg já podem ser colocados nesse método, mesmo que precisem de ventilação mecânica.

Onde tudo começou

O Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento foi instituído pelo Ministério da Saúde em 2000.

O objetivo principal é assegurar a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, assistência ao parto e puerpério às gestantes e ao recém-nascido, na perspectiva dos direitos de cidadania.

A partir deste modelo, a Agência Nacional de Saúde Suplementar, o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement em uma iniciativa conjunta e com o apoio do Ministério da Saúde deram início ao projeto-piloto Parto Adequado, a ser implementado em hospitais públicos e privados. A ideia é testar estratégias que visam a melhoria da atenção ao parto.

Agora, o objetivo do Hospital Ana Costa é ingressar neste Projeto. Para isso, estão promovendo mudanças de infraestrutura, de processos e de recursos humanos, a fim de cumprir os requisitos do Projeto.

Histórias da região

O primeiro filho da enfermeira Graziella Cristina da Silva Barbosa, agora com seis anos, nasceu de uma cesárea agendada. Na segunda gestação, de gêmeas e pós-cesárea, ela conseguiu realizar o parto humanizado.

“Queria ser protagonista do meu parto”, relata Graziella. “Na cesárea, a mulher não participa de nada, apenas aceita passivamente os procedimentos. Já no parto humanizado, respeitam a nossa atuação, o nosso tempo, tudo acontece na hora certa”, completa.

O primeiro parto foi agendado com 40 semanas, por recomendação do médico. Era véspera de carnaval e ele iria viajar. “Fiquei com medo de esperar e ter que fazer com o plantonista. Queria parto normal, mas por medo de violência obstétrica aceitei agendar a cesárea”, relembra.

A médica que realizou o pré-natal das gêmeas trabalha com humanização de parto e sempre incentivou Graziella. O parto humanizado só foi possível porque a gravidez aconteceu sem nenhuma complicação.

“Procurei por uma doula e uma enfermeira obstetra. Elas acompanharam em casa meu trabalho de parto. Fui para a maternidade quando já tinha 8cm de dilatação”, comenta.

Após 24 horas, Graziella e as gêmeas já estavam de alta. Sua médica de pré-natal também fazia parte do hospital que Graziella optou por realizar o parto humanizado. Mesmo assim, ela garante que com plantonistas alinhados com o projeto parto adequado, não teria mais o medo da primeira gravidez.

Se Graziella foi atrás de tudo para realizar o parto humanizado, a atendente de educação Danielle Neri Santos só descobriu sobre esse tipo de parto quando chegou ao hospital.

“Eles me falaram sobre este tipo de parto e achei bem interessante. Toda a equipe é engajada em dar total segurança ao paciente e são muito cuidadosos”, diz. 

Curso para gestantes

O Hospital Ana Costa realiza, no dia 29 de março, às 19h, na Rua Amazonas, 143 – 10º andar, em Santos, o curso para gestantes, com inscrições gratuitas. 

No evento, as futuras mães serão apresentadas ao novo modelo de atendimento obstétrico humanizado da instituição, que valoriza o parto normal, além de receber orientações sobre a participação do pediatra durante o nascimento, a alta do recém-nascido, testes e vacinas, amamentação e alimentação durante o puerpério, entre outras. 

As interessadas devem estar com 28 semanas ou mais de gestação e podem participar do curso com um acompanhante. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail [email protected]

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