Política

Papo de Domingo: As urnas eletrônicas usadas nas eleições brasileiras são seguras?

Confira entrevista com Fernando Amatte, diretor de inteligência cibernética da CIPHER, empresa especializada em cibersegurança

7 OUT 2018 Por Vanessa Pimentel 07h:40
Para Fernando Amatte, as urnas passaram por um processo de evolução Para Fernando Amatte, as urnas passaram por um processo de evolução / Divulgação

Desde 2009, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza os Testes ­Públicos de Segurança (TPS), onde qualquer cidadão com mais de 18 anos pode se inscrever mediante a apresentação de um plano de ataque, contribuindo assim para melhorias no sistema das urnas eletrônicas, usadas nas votações ­brasileiras.

Mesmo sendo o único país a realizar esse tipo de teste, dezenas de dúvidas surgem a respeito da segurança e o armazenamento de informações das urnas eletrônicas brasileiras. O receio é que pessoas mal-intencionadas usem a tecnologia para ameaçar a democracia e influenciar o resultado das eleições, a exemplo do que aconteceu no ano passado nos Estados Unidos, quando o FBI confirmou que a ação de hackers afetou o resultado da eleição para presidência do país.

Para Fernando Amatte, diretor de inteligência cibernética da CIPHER, empresa especializada em cibersegurança, as urnas, ao longo do tempo, assim como outras tecnologias, passaram por um processo de evolução e a primeira urna que foi usada tem poucas semelhanças com as utilizadas atualmente.

Confira a entrevista com o especialista sobre a segurança depositada nas urnas.

DL – Explique o que é o código fonte e por que há críticas em relação a este código.

Fernando Amatte – Primeiramente, as pessoas falavam somente sobre a urna e agora elas falam do software da urna. Acho isso muito bom, pois as pessoas estão começando a entender os detalhes e pensar sobre eles. O código fonte seria o cérebro da urna e se esse código estiver danificado, teremos problemas. A partir disso, alguns fatores devem ser levados em consideração. Não existem códigos sem erros. Códigos são produzidos por pessoas e pessoas são suscetíveis a falhas. O ponto aqui é como identificar essas falhas. O TSE oferece mecanismos para que as pessoas possam olhar ou vistoriar o código, porém a maioria desconhece esse processo, o que torna mais fácil criticar do que agir.

DL – Como é possível saber que todos os problemas forram corrigidos pelo TSE?

Fernando - Empresas sérias de desenvolvimento mantém uma lista de mudanças e atualizações de uma versão de software para a outra. O TSE, sendo um órgão sério, também precisa ter isso. Como o órgão pretende divulgar publicamente o software em breve, vai ficar mais fácil achar, apontar e verificar se a correção foi feita de uma versão para a outra.

DL – Fraudes internas podem ser cometidas por pessoas que tiverem acesso à programação e ao preparo das urnas?

Fernando – Sem dúvida. Para evitar e dificultar esse tipo de situação, ninguém deve ter acesso ao código, nem ter a possibilidade de manipulá-lo. Além disso, cada mudança neste código deve ser verificada por uma ou mais pessoas diferentes. Existem, ainda, em se tratando de código, ferramentas de “versionamento” que mantém e controlam as alterações do software e podem ser utilizadas para validar o que foi feito, por quem foi feito e se isso está de acordo com o solicitado.

DL – A impressão dos votos seria um sistema a mais de segurança ou apenas mais uma ­burocracia?

Fernando – Impressão dos votos não está relacionada diretamente com segurança, mas sim com auditoria. Após uma eleição digital, há registros físicos para uma possível auditoria. Essa se torna apenas mais uma etapa na comprovação da honestidade do processo.

DL – Com tantos casos de ataques cibernéticos, voltar as eleições para o voto impresso seria mais seguro?

Fernando – Acredito que não. O Brasil é inovador e as técnicas de segurança baseadas em situações extremas vivenciadas aqui acabam sendo diferenciadas e mais avançadas tecnologicamente. E eu, como um especialista em segurança cibernética que trabalha com informática há muito tempo, vejo, por exemplo, que é muito mais fácil trocar ou ocultar uma cédula de voto, algo que é físico, do que um voto digital.

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