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Violência leva terra natal de Marina Silva a virar reduto de Bolsonaro

A segurança é o principal motivo citado pelos eleitores ouvidos pela Folha de S.Paulo para optarem pelo deputado

5 OUT 2018 Por Folhapress 22h:00

Em 2014, Rosa Viga votou na então candidata do PSB Marina Silva para presidente. Neste ano, mesmo com a ex-senadora novamente no páreo, a vendedora de 57 anos não tem dúvidas: migrou para Jair Bolsonaro (PSL).

Ela explica a mudança à Folha de S.Paulo num movimentado mercado municipal em Rio Branco, capital do Acre e terra natal da candidata da Rede. "Eu vou votar nele por causa da violência, e a Marina não fala tanto nisso", diz. "Você sai de casa e não sabe nem se vai voltar. Eu nunca fui assaltada, mas a minha filha foi, no meio tarde, no meio da rua."

A vendedora não está sozinha: o Acre, estado onde Marina conquistou o primeiro lugar (com 42% dos votos) no último pleito, volta-se para o deputado Jair Bolsonaro (PSL) em 2018. Segundo pesquisa Ibope de 20 de setembro, o estado se tornou o mais bolsonarista do país, apontando que dará 53% de seus votos para o capitão reformado.

"Em 2014, ela era a menos pior. Este ano, o menos pior é o Bolsonaro", diz o motorista de Uber Michel Rodrigues, 30.

A segurança é o principal motivo citado pelos eleitores ouvidos pela Folha de S.Paulo para optarem pelo deputado. "Ele é o único que fala de segurança pública com rigor, o resto só fala de saúde e educação. De que adianta educação e saúde se você sai na rua e pode ser morto?", questiona o autônomo Jean Carlos, 35.

O estado da região Norte viu a violência aumentar vertiginosamente nos últimos anos. Na capital, Rio Branco, a taxa de homicídios em 2016 chegou a 63,4 a cada 100 mil habitantes -a média nacional é de 38,6- segundo dados do Atlas da Violência divulgados em 2018.

Além disso, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Acre é o segundo estado com maior taxa de mortes violentas no Brasil. Foram 530 casos em 2017, um aumento de 42% em relação a 2016.

"Falam que se ele voltar vai voltar a ditadura. Eu acho muito melhor ser governada pelos policiais e militares que pelos bandidos que vêm aqui e mandam fechar as lojas às 17h", diz a comerciante Marivanete Jucá, 56. "Então, se eu pudesse dar um milhão de votos pra ele eu dava."

Também pesa a favor de Bolsonaro o antipetismo incentivado tanto pela crise nacional da imagem do partido como pelo desgaste local. O PT, que governa o estado há 20 anos, deve perder a disputa para o Palácio Rio Branco neste ano.

Em visita ao estado durante a campanha, Bolsonaro disse que iria "fuzilar a petralhada". "Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre. Vamos botar esses picaretas pra correr. Já que eles gostam tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá", afirmou.

Empregada doméstica, Damiara Andrade, 28, não lembra em quem votou na última eleição. Nesta, porém, vai votar no capitão reformado. "Só não quero que o PT ganhe, não quero mais", afirma.

A repositora de estoque Clenilda Pereira, 42, acha que o candidato tem "umas ideias doidas", mas vai votar nele por causa da corrupção que vê em outras opções. "Vou com ele diante de tanta Lava Jato, tanta coisa aí. Vai que um doido resolve", diz, rindo. Ela afirma, por exemplo, ser contra a liberalização da posse de armas. Mas diz que "nem tudo que ele fala vai acontecer". "Esse negócio de arma tem que ter dinheiro, não vai ser assim todo mundo que vai ter."

"Esse fenômeno da migração de quem quer o novo e em 2014 votou na Marina se explica porque naquele momento viu nela também a possibilidade de tirar o PT da situação", afirma o porta-voz da Rede no estado, Júlio César de Sousa.

Em 2010, quem venceu no estado foi José Serra (PSDB). Marina, então no PV e em sua primeira tentativa de chegar ao Planalto, ficou em terceiro, atrás de Dilma Rousseff (PT).

Entre os políticos do estado, Bolsonaro encontra apoio não apenas em seu candidato ao governo, Coronel Ulysses, do PSL.

Membro da bancada evangélica da Câmara, Alan Rick (PRB) é candidato à reeleição e também parte do palanque estadual de Bolsonaro no estado. Ele lista, além da violência e o antipetismo, a agenda conservadora encampada pelo deputado é outro ponto que atrai o eleitorado.

De acordo com ele, esse é o motivo também da derrocada de Marina Silva em seu estado. "Faltou contundência à Marina no discurso dela com os cristãos evangélicos, que gostariam de ouvir que ela é contra o aborto. Ela jogou para a plateia com essa coisa de fazer plebiscito", afirma o parlamentar.

A candidata diz que é contrária à descriminalização do aborto, mas que se eleita faria um plebiscito sobre o assunto.

Candidato a senador pelo MDB, Marcio Bittar pede abertamente votos para o deputado em seu programa de televisão -embora seu partido tenha candidatura própria, a do ex-ministro Henrique Meirelles. Mais discreto, o líder das pesquisas, Gladson Cameli (PP), se "esquece" de Geraldo Alckmin (PSDB) em santinhos distribuídos nas ruas de Rio Branco.

Bolsonaro, é claro, não é unanimidade entre os eleitores acrianos. O comerciante Carlos Roberto Franco, 51, diz que "o povo é esquecido". "O tempo que a gente ganhou mais dinheiro foi o tempo do Lula", afirma ele.

Débora Andrade, 20, também não quer o capitão reformado no poder. "Já tem tanta morte, imagina se der arma pra todo mundo?", diz. "Não quero nem o PT, nem ele", afirma a jovem, que vai votar em Ciro Gomes (PDT).

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